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INTOLERÂNCIA, A VIOLÊNCIA DOS ‘JUSTOS’

AuthorPostado por: Acioli Alexandre    Category Em: Artigos     Tags

*Ronaldo de Almeida

A pedra atirada na cabeça de uma menina praticante de uma religião afro-brasileira por pessoas identificadas como evangélicas é um desses casos-limite que mesmo os acusados de incentivadores deste ódio manifestaram-se contrários. Afinal, nada mais anti-bíblico do que um apedrejamento, que o diga a mulher adúltera, salva por Cristo com uma frase simples e de aplicação universal: Atire a primeira pedra quem não tiver pecado.

Mesmo assim, o fato desperta indignação e preocupação em relação ao momento em que vivemos. Neste sentido, o evento não deve ser lido apenas à luz dos conflitos religiosos. É preciso ampliar o foco e entender o ato como sintoma de afetos sociais mais amplos que são pouco abertos às diferenças, muito voltados sobre si como medida para a vida pública e por vezes agressivos simbólica e concretamente com o que negam.

Isso porque na conjuntura atual assiste-se a uma concertação entre vetores que apontam para a contenção, restrição e mesmo retrocesso no plano dos direitos e das escolhas individuais. Trata-se do que vem sendo nomeado de “onda conservadora”. Ressalte-se: esta é uma onda que tem quebrado em várias direções. Algumas religiões fazem parte deste movimento mais amplo, e no que diz respeito aos evangélicos pentecostais pelo menos dois pontos são centrais.

O primeiro refere-se à disputa em torno da moralidade pública relativa a temas como família, ensino, reprodução humana, sexualidade, gênero, entre outros. Cabe lembrar que os evangélicos brasileiros são fortemente influenciados pelas proposições fundamentalistas norte-americanas, universo do qual a grande maioria deles descende.

Tais pautas têm sido canalizadas de forma mais contundente no Poder Legislativo e é algo relativamente recente. A entrada na política institucional nos anos 1980 visou mais à canalização de recursos para a rede religiosa do que uma ação contundente no sentido da regulação dos comportamentos e dos corpos. Contudo, composições recentes da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara Federal (historicamente associada a temas relativos às questões indígenas, agrárias, imigratórias, de violência etc.) têm pautado o debate em torno das moralidades e dos comportamentos.

O segundo ponto refere-se aos atos de iconoclastia, de vilipêndios por meio de rituais, de constrangimento moral e, apesar de menos frequente, de violência física. No senso comum, é recorrente alguns comportamentos mais belicosos dos pentecostais, sobretudo contra as religiões afro-brasileiras, serem associados ao fundamentalismo islâmico. No entanto, esta associação não encontra vínculos históricos ou culturais para se sustentar. A meu ver, é mais profícuo pensar a partir da cultura de violência existente no país, seja a do Estado seja a dos bandidos.

Recentemente, a Igreja Universal apresentou os Gladiadores do Altar, jovens obreiros que fazem rituais militaristas com uma estética semelhante à do filme Tropa de Elite. A semelhança, no entanto, não se limita à performance. O Bope do Rio de Janeiro conta com policiais evangélicos que formam a Tropa de Louvorenquanto em São Paulo foi criado o grupo PMs de Cristo que diz combater traficantes e policiais corruptos possuídos por demônios.

Além dos policiais evangélicos que veem sua atividade também como uma missão religiosa, surgiram recentemente nas favelas do Rio de Janeiro traficantes de drogas que participam de pequenas igrejas evangélicas. Se anteriormente os bandidos “fechavam o corpo” nos terreiros afro-brasileiros, cada vez mais eles têm buscado proteção espiritual nas orações dos pastores e frequentado rituais nas igrejas. Como consequência, tais traficantes têm expulsado das favelas os terreiros de umbanda considerados demoníacos.

Em todos eles, policiais e bandidos, a demonização é a linguagem pela qual uma guerra espiritual é vivida. Na verdade, o código da guerra e do inimigo perpassa a todos. E isto me leva a uma pergunta, meio anedótica mas nem de todo implausível: se os PMs de Cristo e a Tropa de Louvor combatem os demônios que agem nos traficantes e nos policiais corruptos, e se os traficantes evangélicos expulsam os demoníacos terreiros de umbanda das favelas, o que acontecerá quando aparecer o primeiro pai de santo evangélico? Ele vai demonizar quem? Talvez o círculo se feche e alguns evangélicos (tipo Malafaia, Macedo ou Feliciano) virem os capetas da vez.

Entretanto, não dá para generalizar os evangélicos a partir destas figuras. Na última Parada Gay  acompanhei um grupo de evangélicos gays que celebravam sua fé e afirmavam que Cristo é contra a homofobia. Em sua performance dançaram, cantaram e declararam: “Sou gay e Jesus é meu pastor”. Mas onde estão os bons pastores evangélicos que reprovam o ódio às religiões afro-brasileiras e a fobia aos gays? Conheço vários, mas todos juntos, ainda, não têm a visibilidade dos pastores citados acima.

O fato é que boa parte dos que falam em nome dos evangélicos tem participado de um movimento mais amplo que trabalha a favor das restrições dos comportamentos e mesmo da criminalização da população. A participação de um terço dos deputados da bancada evangélica na bancada da segurança, entre eles o presidente da Câmara Federal e o próprio presidente da bancada evangélica, é indício da afinidade de sentido entre religião e violência do Estado. Violência que encontra sua legitimidade em sentimentos coletivos de vingança, como este identificado na quase unanimidade nacional a favor de maior encarceramento seguindo a lógica da tolerância zero.

Na coletânea intitulada A Intolerância, a antropóloga francesa Françoise Héritier nos oferece uma proposição iluminadora do momento atual: A intolerância é sempre, essencialmente, a expressão daquilo que é considerado como que saído de Si, idêntico a Si, que destrói tudo o que se opõe a essa proeminência absoluta. Isto é bastante visível na aliança do pentecostal Marcos Feliciano com o católico Jair Bolsonaro na Comissão de Direitos Humanos e Cidadania, na qual formam uma espécie de ecumenismo à direita no combate aos “inimigos da sociedade”, por exemplo, Jean Willys.

Como dito, a onda conservadora quebra em várias direções e seria necessário aqui mais espaço para demonstrar em um nível mais profundo, psíquico mesmo, as afinidades entre o ódio às religiões afro-brasileiras, a fobia aos gays e a vingança contra o adolescente infrator. Os vetores conservadores são diversos mas apresentam entre si conexões parciais, pois todos caminham no mesmo sentido da intolerância que elege inimigos a serem apedrejados, cerceados e encarcerados. No espírito deste momento sombrio, o ódio, a fobia e a vingança são as pulsões da violência daqueles que se consideram os ‘justos’.

*Professor da Unicamp

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