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CARTA ABERTA: O BRASIL PRECISA ABRIR ESCOLAS, NÃO FECHÁ-LAS

AuthorPostado por: Acioli Alexandre    Category Em: Serviços     Tags

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O direito à educação está distante de ser consagrado no Brasil. Mais de 3,5 milhões de crianças e adolescentes, de 4 a 17 anos, estão fora da escola. Segundo a Constituição Federal, com o advento da Emenda 59/2009, todos os brasileiros nessa faixa-etária devem estar matriculados até 2016 – e dificilmente isso ocorrerá. Além das demandas estabelecidas pela Carta Magna, até 2024, o Plano Nacional de Educação (PNE) determina a necessidade de criação e manutenção de mais de 3,4 milhões de matrículas em creche e mais de 13 milhões de matrículas para a alfabetização de jovens e adultos.

Os desafios nacionais são enormes, advém de dívidas sociais históricas e precisam ser enfrentados. A educação é um direito fundamental, parte essencial da cidadania e está listada como o primeiro direito social no artigo sexto da Constituição Federal.

Consagrar o direito à educação exige a abertura de escolas, além da qualificação urgente das matrículas, com a garantia de um padrão mínimo de qualidade – conforme determina o PNE por meio do Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi) e demanda o parágrafo primeiro do artigo 211 da Carta Magna. Em vez disso, em todo território nacional, é verificado o fechamento de turmas e escolas, da creche ao ensino médio, nas cidades e no campo, com forte ênfase na Educação de Jovens e Adultos (EJA). E essa medida contraproducente e arbitrária tem sido empreendida em processos administrativos impostos às comunidades escolares, alheios às questões pedagógicas.

A proposta de reorganização de escolas no estado de São Paulo é mais um exemplo dessa lógica perversa que se espalha pelo Brasil. Não foi debatida junto às comunidades escolares, tampouco com a comunidade educacional e com a sociedade paulista. Pela falta de critérios técnicos e de um documento público que justifique a medida, tudo indica que é uma ação orientada à redução de custos e de desresponsabilização do Estado com a oferta de matrículas, pressionando a transferência de responsabilidades aos municípios.

Diante desse fato, a rede da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que há 16 anos luta ininterruptamente pela garantia do direito à educação no país, manifesta seu apoio aos estudantes paulistas que ocupam suas escolas, legitimamente amparados pelo sistema de justiça, que até aqui tem negado – quase sempre – os pedidos de reintegração de posse ao Governo do Estado. Os estudantes estão dando uma verdadeira aula de cidadania e luta pelo direito à educação.

Desse modo, a Campanha repudia o fechamento arbitrário de mais de 90 escolas públicas no Estado de São Paulo, sob o argumento de uma “reorganização” baseada na separação das escolas por nível de ensino. E reitera que é inaceitável o fato de que não foram amplamente divulgadas as justificativas técnicas que embasam estruturalmente a proposta. Até o momento, graças à Lei de Acesso à Informação, apenas veículos de imprensa tiveram acesso a essas informações. E segundo consta, elas evidenciam a ausência de racionalidade pedagógica.

A posição da Campanha Nacional pelo Direito à Educação no caso de São Paulo, e em qualquer processo que resultará no fechamento de escolas em qualquer lugar do Brasil, é consonante com o princípio de respeito às opiniões das crianças e dos adolescentes no que se refere a seus direitos e com as premissas do direito à educação estabelecidas nos principais documentos de direitos humanos internacionais, em especial com os artigos 12, 15, 28 e 29 da Convenção dos Direitos da Criança da ONU.

Todos esses ditames estão refletidos na legislação brasileira no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA e também com as metas e estratégias contidas no Plano Nacional de Educação (Lei 13.005/14), afora o direito fundamental à participação asseverado na Constituição Federal. A negociação e as consultas devem também ser prática corrente no tocante ao fechamento de escolas e turmas da modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA), na qual, desafortunadamente, o encerramento de matrículas é prática frequente. E isso explica o fato de o Brasil ter mais 13 milhões de analfabetos com mais de 15 anos.

Mais do que fechar cerca de 90 escolas, a atual proposta de “reorganização” do ensino atingirá mais de 1.500 estabelecimentos, prejudicando estudantes, suas famílias e milhares de profissionais da educação. A análise dos poucos dados existentes demonstra que seria possível reorganizar escolas, porém negociando com todos os envolvidos, sem fechar estabelecimentos. É isso que se espera da gestão pública: promover direitos, não limitá-los. A Campanha Nacional pelo Direito à Educação sugere, portanto, aos estudantes e ao Governo do Estado de São Paulo, esse caminho: nenhuma escola deve ser fechada. Ao contrário, todas devem ser melhor geridas, de modo democrático.

Ao visitar as ocupações e dialogar com os estudantes, a rede da Campanha Nacional pelo Direito à Educação externa sua preocupação com a forma como se dá a presença da Polícia Militar nas unidades escolares ocupadas. Já ocorreram conflitos e há risco constante de que os estudantes sejam vítimas de acuamento e atos violência. Qualquer tentativa de calar os alunos ou as comunidades escolares por meio da intimidação ou da força só aumenta a violação dos direitos humanos. Ademais, desnuda a forma truculenta como o Governo do Estado de São Paulo tem tratado do assunto, em um jogo incansável de contrainformação, tentando jogar estudantes contra professores e pais contra alunos por meio de pressão de ordem administrativa. Nesse momento, é preciso diálogo, com base na promoção dos direitos educacionais.

Alinhada com os posicionamentos públicos das faculdades de educação da USP, UFSCar, Unicamp e com o colegiado da Unifesp, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação insiste que o problema que se enfrenta em São Paulo deve chamar a atenção de todo país.

Entre 2002 e 2014, mais de 40,7 mil escolas do campo foram fechadas. Apenas em 2014, segundo análise do Censo Escolar produzida pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), 4 mil escolas do campo foram fechadas. A Bahia (872 unidades), o Maranhão (407) e o Piauí (377) lideraram o fechamento de escolas nas áreas rurais em 2014. Inclusive, fica evidente a necessidade de legislação para tratar do assunto, no âmbito das diretrizes e base da educação nacional. O país deve evitar e problematizar o fechamento de escolas.

Ao estabelecer contato com os jovens e adolescentes que ocupam suas unidades escolares e ao analisar o cenário brasileiro, a rede da Campanha Nacional pelo Direito à Educação manifesta seu apoio integral aos estudantes que ocupam centenas de escolas paulistas, não apenas defendendo seu direito à matrícula e à manutenção de suas unidades escolares, mas também reivindicando estabelecimentos públicos que ofertem qualidade da educação. Que suas lutas inspirem todo o Brasil a debater, com profundidade, as políticas educacionais, constrangendo e encerrando a prática equivocada do fechamento de escolas.

Fonte: Campanha Nacional pelo Direito à Educação

1 Comentário to “CARTA ABERTA: O BRASIL PRECISA ABRIR ESCOLAS, NÃO FECHÁ-LAS”

  • Leinade 29 de janeiro de 2016 às 08:12

    OS DEPUTADOS E A CPI DAS FACULDADES

    O caso da CPI das faculdades irregulares teve início em junho de 2015 com a denúncia de cursos superiores irregulares oferecidos pela FAEXPE (Faculdade Extensiva de Pernambuco).
    O caso parece ter se tornado assunto para promoção de campanha política para o deputado Rodrigo Novaes (PSD) e Teresa Leitão (PT).
    Aos meus amigos alunos e estudantes, saibam que cada vez que apoiamos às ações do deputado Rodrigo Novaes e da deputada Teresa Leitão quanto tudo aquilo que venha nos prejudicar quanto alunos dos cursos de extensão, conspiramos contra o nosso próprio futuro, lesamos os nossos próprios bolsos e frustramos nossos próprios sonhos.
    Não estou aqui redigindo uma apologia ou defesa à ilegalidade como mencionado pelo deputado Rodrigo Novaes quando se referiu a atuação do Ministério Público do Estado ao este se pronunciar preocupado com os cidadãos de bem e alunos da FAEXPE para serem dados prosseguimentos dos estudos por meio da faculdade Anchieta, pronunciou o deputado: “É a formalização da ilegalidade”. Tenho certeza que o Sr. Dr. do MP do estado tem muito mais coerência e preocupação com os alunos do que o senhor deputado Rodrigo Novaes, pelo ao menos, até o momento presente.
    Considerando que os governos não conseguem atender as demandas educacionais em nosso país, principalmente nos interiores do nordeste, onde não há internet e os cursos EAD são impraticados, onde a educação superior tradicional é economicamente inviável, onde o povo sofre e vive do bolsa família, que seja formalizado a prática dos cursos de extensão para aproveitamento de créditos por faculdades credenciadas pelo MEC que atendam a determinados parâmetros de qualidade do ensino.
    Quanto aos deputados, Rodrigo Novaes e Teresa Leitão, deixo uma sugestão a ser considerada: querem ser bem votados nas próximas eleições a fim de dar continuidade aos seus projetos parlamentares e sem nenhum aluno fazer campanha contraria e ainda ser tido como super- heróis e salvador da pátria?
    Medeiem junto ao MEC, considerando as questões de insuficiência da educação superior ofertada em nosso pais nos municípios desfavorecidos geográfica e economicamente, solucionar a questão em pauta, formalizando os cursos de extensão praticados por faculdades credenciadas pelo MEC com exigências mínimas de qualidade para aproveitamento de créditos. Uma ideia seria o que esta sendo atualmente proposto pela FADIRE.
    Espero ter colaborado
    Abraços a todos!

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