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O ESTADO COMO PROLONGAMENTO DA FAMÍLIA

AuthorPostado por: Acioli Alexandre    Category Em: Artigos     Tags

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Michel Zaidan – Cientista político e professor titular da UFPE

Estava eu retornando de uma reunião de trabalho com a diretoria da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (Fetape), quando fui surpreendido com gritos de um motorista na rua, que acenava para mim perguntando o que achava da nomeação do infante João Henrique para o cargo de secretário de Governo. Certamente não foi por necessidade econômica do órfão de pai. Além da pensão por morte, o jovem desfruta de uma situação familiar confortável.

Então, qual seria a motivação do governador em nomear o filho do falecido Eduardo Campos para a sua assessoria? – Não deve ter sido em função de suas qualificações profissionais e da pouca idade e experiência que o jovem possui. Também não deve ter sido pelo bem do Estado de Pernambuco e dos pernambucanos.

Poderia ser uma digna apoteose do recente Carnaval, que homenageou a figura de Miguel Arraes e seus descendentes. Dizia Ariano Suassuna – amigo íntimo dessa família – que o povo brasileiro tinha uma enorme nostalgia da monarquia portuguesa, seus títulos nobiliárquicos, seu fausto e brilho. Que, no fundo, todos nós éramos monarquistas disfarçados de presidencialistas imperiais. Mas a monarquia arianista era de Carnaval, meramente simbólica, uma encenação digna de um teatro mambembe, que ele tanto admirava.

O problema é quando a fantasia pula dos romances armoriais e das troças carnavalescas diretamente para o Palácio do Governo e assume cargo e contracheque, às custas do erário público. – Será que o senhor Paulo Henrique Saraiva Câmara não se dá conta do simbolismo dessa nomeação? – Acha que ela é um fato corriqueiro, natural (talvez, numa gestão familista) que não chama a atenção de ninguém? Logo ele que foi recrutado do Tribunal de Contas do Estado, que tem por tarefa fiscalizar as contas da administração pública?

Pode não ser, mas essa nomeação de um filho do falecido governador, responsável direto pela eleição do atual governador e do atual prefeito da cidade do Recife, pode parecer uma troca de favores, uma retribuição à família enlutada pelos extraordinários esforços realizados para a sua eleição, quando ele era ainda um mero técnico e analista de contas do Tribunal do Estado. Poderia ser também uma forma de se criar um trampolim político para catapultar uma futura e vindoura candidatura às eleições municipais deste ano.

Mas há, também, uma hipótese irrecusável que anda de boca em boca na cidade do Recife: assim como a matriarca do clã, a ministra-mãe, vem envidando todos os esforços para transformar o seu filho em prefeito de Olinda (pobre Olinda!), a mãe do infante Paulo Henrique deve ter recorrido à cota-parte de que desfruta nesse reino armorial para emplacar a carreira política do filho. Esta hipótese não é de todo descabida, pois entre os herdeiros do espólio eduardista ela detém muito poder. Não parece. Mas tem. E o seu poder de persuasão não é meramente dialógico ou discursivo, é bem mais eficiente do que isso.

O Estado de Pernambuco tornou-se um botim disputado pelas várias facções e grupos remanescentes com a morte do ex-governador. Nem todos os competidores têm o mesmo poder. Uns o conservam por linhagem dinástica, de sangue, de parentesco – próximo ou distante. Outros, pela subserviência, pela fidelidade canina ou de interesses. Há, ainda, os espertos e malandros de sempre, farejando vantagens aqui e ali.

Por quanto tempo, os pernambucanos vão tolerar o domínio dessa oligarquia?

Do: Blog de Roberto Almeida

1 Comentário to “O ESTADO COMO PROLONGAMENTO DA FAMÍLIA”

  • José Dantas 20 de fevereiro de 2016 às 10:50

    Jose Dantas · Aracaju, Brazil
    Excelente artigo, todavia, os familiares do finado Campos estão servindo de “boi de piranha”, já no Brasil funciona o famoso dito popular: “amigos e parentes, tudo. Aos inimigos, os rigores da lei”. O mal exemplo já começa no Governo central 5000 cargos comissionados, isso sem falar nos tercerizados. No Congresso idem, sendo que essa maratona de benesses termina nas prefeituras, onde em muitas delas os gestores estão acima da Lei, empregam sem concuros, pais, irmão, primos, empregadas, vaqueiros etc.

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