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O BOTÃO

AuthorPostado por: Maraba Soares    Category Em: Artigos, Cultura     Tags

Baseado na obra de Alfred Hitchcock*

Era uma casa de padrão inferior a classe média, mas não era pobre. Nela morava um casal: a mulher não trabalhava e passava o dia fumando um cigarro atrás do outro enquanto reclamava da vida. O homem era mecânico, e tinha montado uma oficina na garagem do imóvel onde atendia a clientela. Eles não tinham filhos.

– Você é um fracassado. Não mereço essa vida, mereço coisa melhor. – Disse ela, enquanto acendia um cigarro com o cigarro que havia acabado de fumar.

– Não entendi o que você disse. – Respondeu ele, absorto, tentando apertar um parafuso embaixo de um carro.

– Você é um fracassado. – Repetiu a mulher, e deu uma forte tragada: – Não mereço essa vida.

– Você chora de barriga cheia.

– Que futuro eu vou ter casada com um traste como você?

– Querida, se eu pudesse, eu lhe dava uma vida melhor. – Disse ele, paciente. – Faço o que posso.

– Droga de vida! – Outra tragada – Droga de casamento. Droga de tudo.

– Mas meu amor…

– Que amor o quê?! – Reclamou a mulher, enquanto largava a fumaça dos pulmões e saia da oficina.           

Apenas uma porta separava aquele espaço do resto da casa , e em bem pouco tempo ela já estava sentada na sala, fumando e folheando uma revista de celebridades e milionários. E as fotos de pessoas aparentemente felizes a fizeram sonhar acordada, ela suspirou de desejo; e num minuto se angustiou ao voltar à realidade.

– Droga de vida! – Desabafou.           

No entanto, pouco tempo depois, quando ela acendia um novo cigarro, a campainha da casa tocou. Do outro lado da porta estava um homem bem vestido, com charme, roupa de grife, de paletó, gravata e sapatos que brilhavam.

Ela o correu com os olhos, largou o cigarro e perguntou: – O que o senhor deseja?

– Vim lhe propor um negócio. – Disse ele, sério mas com ar de cavalheiro, segurando com a mão direita uma mala preta que brilhava tanto quanto seus sapatos: – Não irei demorar.

– O senhor tem certeza que é para mim? – Perguntou curiosa.
botão

– Sim, é para a senhora mesmo.

– Não, acho que não é para mim. Você deve estar brincando. Eu não posso ajudar.

– Pode sim. – Disse ele, enquanto erguia a mala e a abria – Eu lhe ofereço um botão.

– Não disse? Isso não é para mim. Acho que você se enganou. – Disse a mulher, sem tirar os olhos das mãos do homem. – O que é isso?

– Pegue-o. – Ordenou o homem.

Da mala o homem tirou um botão que estava dentro de uma redoma transparente.

Ela recebeu o estranho objeto. E era estranho mesmo. O botão era como um dispositivo que, quando apertado, acionava alguma coisa. No entanto, por baixo do botão não havia qualquer engrenagem.

– Tome, moço, o senhor ta querendo é me passar um trote. – Disse ela, enquanto tentava devolver o objeto.

– Se a senhora apertar o botão, eu lhe entregarei um milhão em dinheiro vivo. – Falou ele, sem perder a seriedade.

– Um milhão? Nossa! – Ela sorriu suspirando, enquanto usava uma das mãos como se fosse um abanador. 

– Isso mesmo. Amanhã eu retorno para apanhar o botão e lhe entregar o dinheiro.

– Mas… Só isso?

– Sim, só isso! – Disse ele, enquanto se virava: – Mas tem um detalhe, caso a senhora decida apertar o botão, uma pessoa em algum lugar do mundo irá morrer. Não se preocupe com isso, é uma pessoa que a senhora não conhece. – E foi embora, sem olhar para trás.

A mulher ficou durante algum tempo na porta, confusa, olhando para o botão. E quando procurou pelo homem, ele já não estava mais na rua. Ela entrou em casa com o objeto nas mãos. Sentou-se no sofá, pôs o botão por sobre a mesinha do centro e acendeu um novo cigarro. Seus olhos não saiam do botão e sua mente não parava de pensar no dinheiro.           

– O que é isso, querida? – Perguntou o marido, chegando da oficina, enquanto tentava tirar a graxa das mãos com uma flanela que mais sujava do que limpava.

– Um homem estranho deixou isso pra mim. É um botão. Veja, só preciso apertá-lo para ganhar um milhão.

– É muito dinheiro. Você tem certeza, não é uma brincadeira?

– Ele é de confiança. Por que iria brincar?

– Eu sei lá. Ninguém dá tanto dinheiro assim sem motivo. Acho que é algum louco.

– Ele não parecia louco.

– E o que você vai fazer? Por que não aperta logo e a gente vê o que acontece?

– Mas se eu apertar, alguém, em algum lugar, vai morrer.

– Larga isso, mulher. – Disse ele, assustando-se. – Não brinque com esse tipo de coisa. Acho melhor você devolver. Isso é coisa do diabo!

– Não vou devolver. – Respondeu ela, levantando-se em direção ao quarto: – Essa é chance da minha vida.

– E se for verdade? E se alguém morrer?

– Não me importo. – Disse ela dando com os ombros: – O homem disse que é uma pessoa que não conheço.

– Devolva, querida…

– Não. – Finalizou a mulher, entrando no quarto com o objeto e trancando a porta.

                                                                        —

Já eram três da manhã. E ela estava na cozinha, um cigarro atrás do outro, e o botão na mesa sob seu olhar atento. Durante toda noite ela não largara o botão, e seus pensamentos em nenhum momento se aquietaram. Seu marido se recolhera ao quarto havia mais de quatro horas. 

De súbito ela tirou a redoma do botão. Olhou mais uma vez por baixo dele para se certificar de que não existia um fio ou qualquer outra coisa que lembrasse uma engrenagem, mas nada. E, depois de acender um novo cigarro, ela apertou o botão. Nada aconteceu. Nenhum ruído, nenhum efeito. 

– Deve ter sido uma brincadeira. – Disse ela, decepcionada.

No outro dia, ainda cedo, a campainha da casa tocou. Ela estava deitada no sofá da sala e o botão estava largado no chão, dividindo espaço com dezenas de bitucas de cigarro. Era o estranho que havia voltado.

– Tome seu dinheiro. – Disse ele para a mulher, enquanto entregava uma maleta com um milhão em dinheiro vivo, e continuou: – Irei precisar do botão de volta.

Ela apanhou a maleta e logo depois devolveu o botão.

Sem dizer mais nada, ele se virou para ir embora.

– E agora? – Perguntou ela, como se não acreditasse naquilo tudo.

Ele parou e se virou para ela. E com os olhos fixos nos olhos dela, completou:

– Agora irei levar o botão para uma pessoa que você não conhece, num lugar distante daqui. Irei fazer a mesma proposta que lhe fiz. E se essa pessoa apertar o botão, você é quem morre.

*Alfred Hitchcock – (1899 – 1980) foi um cineasta britânico, considerado o “Mestre dos filmes de suspense”.

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