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GEDDEL ESPERA A POEIRA BAIXAR NO DESERTO DA NOSSA AMNÉSIA

AuthorPostado por: Maraba Soares    Category Em: Brasil     Tags ,

Não há qualquer dúvida em relação à pressão feita pelo ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, junto ao ex-ministro da Cultura Marcelo Calero para que o Iphan liberasse a construção de um prédio de 30 andares no entorno do forte histórico de Salvador. Também não há dúvida em relação aos interesses que motivaram essa pressão: o ministro adquiriu um apartamento no empreendimento imobiliário, avaliado em mais de 2,6 milhões de reais. Como os fatos já admitidos e verificados não poderiam enquadrar o tráfico de influência e o abuso de poder de forma mais clara, a lógica da permanência do Geddel no seu ministério não tem nada a ver com a presunção da inocência ou do suposto desencadeamento de uma investigação séria sobre o caso.

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Em vez disso, estamos assistindo a mais uma manifestação da estratégia mais consagrada da política brasileira dos nossos tempos: deixando a poeira baixar. Geddel está sendo investigado por uma Comissão de Ética. Um membro pediu vista do processo, depois voltou atrás. De qualquer forma, uma decisão sobre o caso pode demorar várias semanas e mesmo condenado Geddel provavelmente continuará no cargo. A aposta do governo é que à medida que a cobertura midiática for diminuindo e outros eventos tomem espaço no debate público, salvar Geddel será bastante fácil. Trata-se, obviamente, de uma peça chave da hierarquia do poder; e a amizade pessoal e proximidade política que une Geddel e Michel Temer há décadas deve prevalecer.

Na política brasileira, deixar a poeira baixar é uma estratégia que funciona melhor que qualquer outra. Funciona tão bem, de fato, que vira quase imperceptível. É só considerar, por exemplo, o segundo evento mais importante da semana passada: Romero Jucá assumiu formalmente a liderança do governo no Congresso Nacional. Menos de seis meses atrás, Jucá, o principal articulador político do presidente Temer, se via obrigado a abandonar o Governo depois do vazamento das gravações em que estava defendendo um “pacto” com o Judiciário para “estancar a sangria” da Lava Jato. Na época, especulava-se que as gravações poderiam resultar no afastamento de Jucá do cargo de senador ou até na derrubada do governo recém instalado. Mas para a grande maioria, este episódio já foi remetido aos porões do esquecimento e, desta forma, Jucá livrou-se mais uma vez do peso do seu passado.

Na espera perpétua do esquecimento, a moralidade da nossa política é a moralidade da amnésia. Tudo que as pessoas esquecem está perdoado. De fato, tudo que as pessoas esquecem nem sequer aconteceu. O compasso moral da política brasileira se resume à tentativa de diminuir, com um discurso cheio de falsidades açucaradas, o incômodo cognitivo gerado pela corrupção sistêmica que lubrifica a governabilidade.

Nas palavras do Geddel Vieira Lima: “Deixar o cargo por isso? Pelo amor de Deus!” Confrontado com as evidências do tráfico de influência e o abuso de poder por ele cometidos, Geddel vai negar o óbvio. Vai afirmar que desmantelar o patrimônio histórico de Salvador em troca da sua jacuzzi no 23º andar, com vista para o mar, é absolutamente essencial para gerar emprego num tempo de crise. Vai postergar qualquer decisão definitiva sobre o ocorrido, esperando que a neblina do tempo tome conta gradualmente da consciência coletiva. Na mente do Geddel, entregar o cargo seria uma resposta nada adequada. No final das contas, já que nós em seguida nos esqueceremos e nos acomodaremos, qual seria o bem social decorrente do Geddel parar de ser Geddel?

A moralidade na política brasileira se assemelha a um deserto. De vez em quando, uma tempestade levanta ao céu mais uma nuvem de areia. Mas logo depois toda areia cai para baixo. As dunas mudam um pouco de contorno mas na essência tudo fica igual. E nada cresce.

El País/Brasil

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