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ESPAÇO CIÊNCIA: ESPECIALISTA REPONDE "O QUE É SER ÍNDIO?"

AuthorPostado por: Paulo Fernando    Category Em: Sem categoria     Tags

Por ocasião da Semana do Índio, que está sendo realizada pelo Espaço Ciência, no Complexo de Salgadinho (Olinda), estudantes do projeto CLICidadão, após participarem da oficina Índios do Brasil, quem são eles? enviaram perguntas para o professor, antropólogo e indigenista Lino João de Oliveira Neves, do 
Departamento de Antropologia 

da Universidade Federal do amazonas (UFAM).


“É com prazer que nesta conversa virtual respondo as perguntas feitas por participantes do Projeto de Inclusão Digital/Social CLICidadão, perguntas essas que me foram encaminhadas pela amiga Edilena Vieira, Coordenadora do Projeto CLICidadão – Espaço Ciência/ Sectec-PE.

– O que é ser um índio? (Ana Maria 38 anos)

Ser índio é ser uma pessoa como outra qualquer, uma pessoa igual a todas as outras, igual a todos nós brasileiros. Os índios são tão brasileiros como todos nós, apenas um pouco diferentes. Uma diferença que é dada pelas diferenças de línguas, de costumes, de espiritualidade, de religião, de tipos de organização social, de estilos de vida, de modos de se organizar para o trabalho, de concepções de mundo, de formas de compreender e explicar os eventos da natureza etc. Ao conjunto dessas diferenças é que chamamos de “cultura”. E são as diferenças de culturas que tornam os povos diferentes.

Assim como o modo de vida dos nordestinos é diferente do modo de vida das pessoas que vivem no sul do país, e também diferente do modo dos nossos patrícios que vivem na Amazônia ou no Centro-Oeste. Para todos nós está bem claro que cada região do país tem um modo de ser diferente, e que estes modos de ser compõem a cultura brasileira, e que as pessoas que se identificam com essa cultura brasileira são todos brasileiros.

Também os índios são iguais a qualquer outro brasileiro, apenas com certas diferenças que os fazem diferentes culturalmente, porém iguais em termos de direitos a qualquer outro cidadão brasileiro.

Os índios são diferentes porque têm culturas diferentes, e não porque sejam biológica ou psicologicamente diferentes. Os índios são seres humanos como todos os outros povos. Todos nós, independente de nossas origens ou dos locais onde nascemos e vivemos, somos pessoas iguais; iguais, porém diferentes, conforme as nossas culturas particulares.

Durante muito tempo o termo “índio” foi empregado, tanto em documentos oficiais, como na literatura e nas conversas informais do dia-a-dia, com um sentido pejorativo através do qual os “índios” eram tratados como inferiores e as suas culturas desprestigiadas. Nos últimos anos, mais recentemente a partir dos anos 1970, o termo “índio” foi “recuperado” pelo movimento indígena que passou a reivindicar o direito de continuarem a viver segundo as suas culturas distintas.

A partir daí, os termos “índio” e “indígena” passaram a ser usados tanto pelos próprios “índios” como pelos não índios como designativos de pessoas de origem étnica diferenciada dos demais membros da sociedade nacional e que mantêm as suas culturas próprias mesmo em situações de convivência – próxima ou distanciada – com segmentos populacionais da sociedade nacional. Assim, “ser um índio”, conforme a pergunta da Ana Maria, é ser membro de uma comunidade que conserva hábitos, costumes, regras sociais, normas de parentesco, formas de organização social etc. através dos quais essa comunidade, esse povo, se identifica como uma unidade social culturalmente distinta de outras populações.

E já que estamos falando em índio vivendo em contato com a sociedade nacional, vale a pena lembrar que segundo os dados oficiais do Censo de 2010 promovido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, existem no Brasil 305 povos, culturas, ou etnias diferentes, com uma população indígena que atinge cerca de 896.900 pessoas, entre as quais são consideradas 78.900 pessoas que, mesmo se declarando de outra cor ou raça, se consideram “indígenas” de acordo com aspectos como tradições, costumes, cultura e antepassados ou por residirem em terras indígenas.

Além desta população indígena conhecida, existem referências a cerca de 90 grupos locais que permanecem ainda hoje “isolados” no Brasil. Sem contatos diretos e regulares com a sociedade nacional, mas apenas com relações esporádicas e eventuais com representantes das frentes de expansão ou com equipes do órgão indigenista oficial (FUNAI) que buscam promover a sua aproximação à sociedade nacional, não existe uma estimativa quanto à população destes grupos isolados, sendo possível apenas afirmar a partir das inúmeras evidências de sua presença e de aparições esporádicas, a sua existência e os locais de sua presença.

Em termos políticos, ser índio, numa sociedade preconceituosa e discriminatória como nossa sociedade brasileira, é, antes de tudo, uma demonstração de coragem, de perseverança e enorme respeito às suas culturas originais e aos seus ancestrais. Apesar de toda a discriminação historicamente imposta aos povos indígenas, continuar a existir pessoas que se declararam indígenas, deve ser para todos nós brasileiros um motivo de admiração e orgulho.

Da minha parte, quero aproveitar para confessar o meu enorme orgulho de poder compartilhar com os índios que vivem no Brasil a condição de brasileiro, que, sendo diferente culturalmente deles (dos índios), sou exatamente igual a eles em nossa condição de ser humano e de cidadão, partilhando como os índios a sua luta em defesa do direito de poderem continuar a existir enquanto pessoas e enquanto povos diferenciados.
 
– O que se tem feito pela preservação e cultura indígena? (Norma 55 anos)

Em termos gerais, desde os tempos da Colônia, passando pelo Império, até os nossos dias como República, o Brasil tem sido um péssimo aliado dos índios. E não é apenas o Brasil que tem maltratado os povos indígenas. Em todo o continente americano, tanto na chamada América Latina como nos outros países americanos, os índios foram, e continuam a ser, sistematicamente desrespeitados. Tratados pelos estados nacionais como populações subordinadas, aos índios foi historicamente negado o reconhecimento de poderem existir como os povos capazes de exercerem a livre determinação.

Tratados como escravos, como mão de obra ou como populações marginais, os índios nunca foram vistos pelos europeus que se instalaram na América e seus descendentes como membros efetivos das sociedades nacionais.

Com o passar do tempo, essa situação mudou apenas na forma da lei, continuando os índios a serem desrespeitados em seus direitos de viver conforme as suas culturas. Ainda hoje, apesar da legislação nacional (Constituição Federal brasileira promulgada em 05 de outubro de 1988) e internacional (Convenção 169 sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes, da Organização Internacional do Trabalho, de 27 de junho de 1989, e Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, da Organização das Nações Unidas, de 13 de setembro de 2007) garantirem o reconhecimento dos direitos civis dos índios como cidadãos associados aos direitos coletivos específicos derivados de suas particularidades étnico-culturais, tais como o direito à educação indígena diferenciada e o ensino bilíngue respeitando as suas culturas, o direito ao atendimento à saúde em concordância com as práticas de cura próprias e o direito ao usufruto exclusivo das terras tradicionalmente ocupadas pelos grupos locais, os povos indígenas continuam ameaçados em sua integridade física e cultural.

Apesar de haverem conquistado o direito legal de viver conforme as suas culturas, os povos indígenas continuam a serem vistos por certos segmentos políticos e econômicos, e mesmo por muitas pessoas da população em geral, como “obstáculos ao desenvolvimento” e como “ameaças à segurança nacional”, e que deveriam “integrados à sociedade nacional”, o que significa dizer, deveriam abandonar, seja pelo uso da força, seja pela persuasão e influência do mundo do branco, as suas culturas próprias para se constituem “brasileiros” integrais.

No fundo, ao considerar os índios como “privilegiados”, pelo fato de legalmente serem reconhecidos alguns direitos específicos derivados da sua condição de primeiros habitantes destas terras, o que estas pessoas contrárias aos índios defendem é que eles deveriam continuar a ser tratados como povos inferiores, como sociedades subordinadas, como pessoas marginalizadas, sem direitos e sem respeito.

O que precisamos nos convencer é de que os índios não precisam e não “devem” ser preservados como espécies vegetais ou animais. O que se faz necessário é que os índios sejam efetivamente respeitados como atores políticos de sua história, o que significa dizer que sejam plenamente reconhecidos os direitos indígenas, expressos tanto na Constituição Federal brasileira como em outros instrumentos legais internacionais, de poderem continuar a existir enquanto povos distintos inseridos nas sociedades nacionais.

Mais do que pensarmos em formular políticas públicas voltadas para a preservação das culturas indígenas o importante é que os direitos indígenas sejam resguardados, e que os próprios índios possam definir, por eles mesmos, os caminhos de suas vidas. E isso, decidir o que fazer com suas vidas, os índios sempre souberam fazer, como bem prova a resistência indígena responsável pela existência ainda hoje, apesar dos mais de quinhentos anos de colonização e opressão, de muitos povos indígenas vivendo em todas as partes do continente americano e do mundo.

– Por que não é divulgada mais a cultura indígena nas escolas, mídia, imprensa? (Glaurio Luz 52 anos)

Para entender essa questão é necessário voltarmos aquele ponto sobre o qual já falamos, de que a sociedade brasileira é preconceituosa e discriminatória para com os povos indígenas. Para sermos exatos é preciso reconhecer que, na verdade, as culturas indígenas são, sim, divulgadas nas escolas e demais instituições da sociedade brasileira, ou através dos meios de comunicação de massa – revistas, jornais, rádio, televisão etc.. O que ocorre é que as culturas indígenas são mal divulgadas, o que acaba dando a impressão de que as culturas indígenas não são tratadas pelos meios de comunicação. Tanto em nossos livros didáticos, como através da grande mídia, na grande maioria das vezes as culturas indígenas são tratadas de maneira negativa, ou, na melhor das hipóteses, a partir de uma visão romântica e como elementos do folclore nacional.

E, nesse ponto, é importante lembrar que preconceito e discriminação não são acionados apenas contra os índios, mas também contra os negros e contra todos aqueles que sejam portadores de culturas diferentes da cultura majoritária nacional. Para a nossa sociedade, que se pretende homogênea e formada por apenas uma cultura nacional, ser diferente é quase crime e, portanto, passivo de ser convertido à “igualdade” de uma cultura brasileira apenas uniforme na ficção dos pensamentos mais reacionários. Afinal de contas, estão aí as nossas culturas regionais, a cultura amazônica, a nordestina, a do centro-oeste, a do pantanal, a do leste e a do sul do país, que em conjunto fazem com que a cultura brasileira seja rica exatamente em razão desta sua imensa diversidade regional.

Com relação à primeira parte da pergunta do Glaurio Luz, (Por que não é divulgada mais a cultura indígena nas escolas?), um sinal promissor é a Lei 11.645, de 10 de março de 2008, que amplia as determinações da Lei 10.639/2003 (de ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana no Brasil) tornando obrigatório a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” nas escolas de educação básica em todo o Brasil. Assim, é de se esperar que as culturas indígenas passem a fazer parte dos programas das escolas nacionais, contribuindo para uma maior difusão e, consequentemente, maior valorização das culturas indígenas e dos próprios povos indígenas. 

Contudo, como já vimos anteriormente, não basta que exista uma lei. Se assim fosse, os índios não sofreriam muitos dos problemas que os atingem, pois já existem leis, tanto nacionais como internacionais, que garante os direitos individuais e coletivos das populações indígenas.

Um testemunho que lhes dou vem da própria universidade onde trabalho, a Universidade Federal do Amazonas, onde, apesar da vigência da Lei 11.645/2008, ainda não foram tomadas iniciativas institucionais de fornecer a devida formação nas temáticas indígena e afro-brasileira aos estudantes das diferentes licenciaturas, e que serão os futuros professores em nossas escolas de ensino fundamental e médio.

O que é necessário é que as leis saiam do papel e sejam implementadas. E para isso é necessário é que cada um de nós, como cidadão, ou como pai de aluno, ou como estudante, ou como professor, passemos a atuar como fiscais sociais no sentido de exigir que as nossas instituições de ensino passem a inserir a temática indígena, e a temática afro-brasileira, em seus currículos escolares.

– Por que todos os índios têm cabelo bom? Por que todos são moreninhos? Se nascer um índio albino o que eles fazem? (Priscila Melo, 16 anos)

Na verdade, aqui temos três perguntas, que exigem três respostas.

Cabelo bom? O que é um cabelo bom? Pixaim não é cabelo bom? É sim, pixaim, carapinha, sarará, é cabelo bom, sim; e mais, é cabelo bem bonito. Aliás, eu adoro o meu cabelo pixaim, prova em minha pele esbranquiçada da minha herança afro que brota do mais profundo do meu ser. Pixaim é tão bom como cabelo liso, como cabelo cacheado. Todo cabelo é bom para quem o tem como bom cabelo. O que quero dizer é que essa coisa de achar “cabelo ruim” é também uma forma de preconceito.

O fato é que a maior parte dos índios tem cabelo estirado, aquele que convencionamos – por uma mera opção estética – classificar como “cabelo bom” por uma questão de ordem biológica. Assim como a maior parte dos afro-descendentes têm cabelos crespos ou a maior parte dos descendentes de europeus têm cabelos lisos e aloirados. Da mesma forma, por questão de ordem biológica, genética, os índios têm a pele mais morena do que os chamados “brancos” e menos escura do que os negros.

E se nascer um índio albino o que eles fazem? E se nascer um branco albino o que eles fazem? E se nascer um negro albino o que eles fazem? Percebem como a pergunta que geralmente fazemos sobre os índios pode ser feita para nós mesmo? E quando perguntamos para nós o que fazemos de nossas vidas, descobrimos que tudo o que fazemos tem origem em nossos costumes, em nossos hábitos sociais, naquilo que chamamos de “cultura”. Tudo o que fazemos é orientado pela nossa cultura. Pensando assim estaremos dando um passo firme no sentido de não mais tomar a cultura dos outros como exótica, ou como uma “aberração” como por vezes as consideramos. As diferentes culturas são apenas diferentes, isso mesmo, diferentes; cada uma válida e verdadeira nos contextos sociais que lhe dão origem e sustentação.

Três perguntas com três respostas, que convergem para uma só questão: em cultura, não existe bom nem ruim.

Então, vamos combinar uma coisa: daqui para frente não vamos mais achar que os índios têm cabelo bom e que são moreninhos. Vamos vê-los como iguais a todos nós, seres humanos apenas um pouquinho diferentes conforme nossas origens étnicas, mas todos nós iguais em nossa condição de seres humanos, e iguais em direitos de sermos o que cada um de nós é, sem que seja preciso nos mascararmos de brancos, ou de negros, ou de índios, para sermos mais valorizados que nossos irmãos de outra cor.

Mais do que isso, mais do que combinar que somos todos iguais, vamos fazer por onde o nosso mundo seja um mundo sem preconceito e sem discriminação, um mundo de cidadãos iguais entre pessoas etnicamente diferentes. Aí vamos descobrir – Que coisa boa! – que todos temos cabelo bom, que todos temos pele boa, cada um com o seu cabelo bom diferente do cabelo bom do outro, com a sua pele boa diferente da pele boa do outro.
 
– O que os índios acham sobre o Dia do Índio? (Helio Júlio, 21 anos)

O Dia do Índio é uma criação dos “brancos”. O Dia do Índio foi instituído em 1940 durante o 1º Congresso Indigenista Interamericano, realizado em Pátzcuaro, no México, sendo escolhido o dia 19 de abril para a sua comemoração. No Brasil o dia 19 de abril passou a ser adotado como o Dia do Índio a partir de uma lei assinada pelo presidente Getúlio Vargas em 1943. A intenção dos que instituíram o Dia do Índio era a de comemorar a presença dos povos indígenas como um fator positivo e de lembrar que apesar da brutalidade da colonização e das seguidas violências impostas em todas as partes da América Latina, e do Brasil, muitos povos indígenas continuam defendendo os seus modos de vida e suas culturas próprias.

Como diz aquela música de Jorge Ben, cantada por muitos cantores e cantoras, e que ficou famosa na voz de Baby Consuelo, “todo dia era dia de índio, mas agora ele só tem o dia 19 de abril”. O que quer dizer isso? Que com a chegada do homem branco às terras do Novo Mundo, que foi como os europeus chamaram o continente americano, os povos que aqui viviam – e eram muitos os povos indígenas que viviam no Novo Mundo antes da chegada dos europeus! – perderam muita coisa: perderam suas terras, perderam muito de suas culturas e muitos povos perderam até a vida, pois que muitos, muitos mesmos, foram extintos, seja através de guerras feitas pelos brancos seja vitimas de doenças trazidas pelos “descobridores” europeus, doenças até então desconhecidas dos índios americanos.

O Dia do Índio é, assim, uma oportunidade de afirmarmos a importância dos povos indígenas para a formação da sociedade brasileira e do país. Assim, ao celebrar a presença dos índios como um fato positivo para todos nós, estamos contribuindo para dissipar os preconceitos que, muitas vezes, sem querer, ou sem nos darmos conta, continuamos a reproduzir fazendo com que os índios sejam vistos como primitivos, como não civilizados, como indivíduos estranhos à sociedade nacional.

Para os índios que não vivem em contato muito intenso com a sociedade nacional, a comemoração do Dia do Índio não significa muita coisa; na verdade, não significa nada. E isso porque, nesse caso, esses índios não partilham os costumes, hábitos e manias do mundo do branco. Para os índios que vivem mais perto de segmentos da população nacional, e que, por isso mesmo, compreendem mais a fundo o significado das manifestações do mundo do branco, a comemoração do Dia do Índio tem para eles, assim como para os demais brasileiros, o sentido de festejar e valorizar a presença dos povos indígenas e a sua contribuição para a formação do nosso país.

Ou seja: para os índios que convivem mais de perto com os brancos, a comemoração do Dia do Índio é bom, pois ajuda a valorizar os povos indígenas, diminuindo, com isso, o preconceito contra as culturas indígenas. E para os índios que não convivem diretamente com a população nacional, o Dia do Índio não significa nada, pois desconhecem o significado dessa data para a população nacional.

O índio vive nas cidades tem carro, celular, tem aparelhos eletrônicos, isso não afeta na identidade dele? (Arthur Luiz, 15 anos)

Como já foi visto antes, tudo que questionamos sobre a vida dos índios pode ser questionado sobre as nossas próprias vidas. O fato de hoje dispormos de carro, de celular, de aparelhos eletrônicos, de todos os benefícios da sociedade industrial não afeta o nosso modo de vida? A resposta é evidente: sim, claro que sim.

O fato de dispormos de todos os benefícios da sociedade industrial que antes os nossos ancestrais não dispunham faz com que hoje sejamos uma sociedade bastante diferente daquela em que nossos avôs e avós viveram. No entanto, apesar das melhores condições materiais de vida, da maior disponibilidade de bens industrializados, do acesso mais fácil à informação e aos serviços culturais, das facilidades de meios de transporte, continuamos a nos identificar hoje como indivíduos pertencentes à mesma sociedade com a qual os nossos avôs se identificavam. Mudaram os tempos e mudaram também os hábitos, os costumes, as regras sociais, as condições materiais de vida; mudaram os princípios éticos e morais, hoje imensamente diferentes daqueles que os nossos avôs comungavam. Os hábitos, os costumes, a cultura, muda constantemente, com o tempo e com as inovações, produzidas pelas próprias sociedades e com aquelas tomadas de empréstimo de sociedades vizinhas. A isso chamamos dinamismo social, a capacidade das sociedades mudarem constantemente, preservando – e o mais correto é dizer: atualizando constantemente – as suas essências, as suas marcas culturais que as distinguem das outras sociedades e outras culturas.

Assim como a nossa sociedade muda com o passar do tempo e com o contato com outros povos, também aos índios deve ser reconhecido o direito de mudarem seus hábitos e costumes, sem que com isso lhes seja atribuído o “pecado”, ou a culpa, de perderem a sua identidade ou a sua “pureza original”.

Voltando a fazer a pergunta para nós mesmos: o fato de dispormos hoje de condições de vida que nossos ancestrais não dispunham faz com que deixemos de nos identificar com aqueles que nos antecederam em nossa própria cultura?  E então, faz sentido pensarmos que o índio que vive nas cidades não mais se identifica com seus ancestrais, com a sua cultura? Faz sentido pensar que o índio que vive nas cidades, que tem carro, que tem celular, que tem aparelhos eletrônicos deixou de ser índio?

Não será esse pensamento de pureza que projetamos sobre os índios, esperando que eles continuem “puros”, morando no interior da mata, andando nus, com pena de arara no nariz, morando em “taba”, uma indicação de um preconceito mal resolvido que não consegue admitir a possibilidade de culturas diferentes conviverem como iguais respeitando as suas diferenças?

– Por que os índios precisam de rituais para fazerem qualquer coisa? (Jacilene – 34 anos)

Antes de tudo, a ideia de que os índios fazem ritual para qualquer coisa, é um exagero. O mais correto é dizer que a vida dos diferentes povos indígenas é marcada, em vários momentos, por diferentes rituais que, por suas particularidades, atribuem a cada povo uma distintividade no conjunto dos povos indígenas (no Brasil e no mundo) e destes para com as sociedades nacionais.

Mas, até aí não estamos dizendo nenhuma novidade, pois os rituais não são exclusividade dos índios. Os rituais estão presentes em todas as populações. Os rituais fazem parte tanto do nosso dia-a-dia como de celebrações, sagradas ou profanas, com que marcamos momentos, datas e eventos que nos são especiais.

Em nosso cotidiano vivenciamos atos que têm um profundo sentido ritualísticos, embora na maior parte das vezes não damos conta disso. Vejamos, por exemplo, a vida das nossas populações regionais.

Os atos cotidianos, sequenciados e repetitivos, de escovar os dentes, tomar banho, pentear o cabelo, de botar perfume etc., são atos rituais de higiene. Da mesma forma, se vestir para ir ao trabalho é diferente de se vestir para ir a uma festa, a um culto ou missa, ou para ir fazer compras na feira, sendo cada um deles também um momento ritual através do qual nos “produzimos” para as relações que iremos manter com outras pessoas.

As expressões orais (bom dia, boa tarde e boa noite) que utilizamos para nos saudar uns aos outros, o brinde com as taças ou copos antes de beber (cerveja, vinho ou outra bebida alcoólica) e o desejar bom apetite para aqueles com os quais comemos junto, os gestos (o aperto de mãos, o beijo na face, o sinal de “positivo” com o polegar levantado, o aceno de cabeça etc.) que utilizamos frequentemente para nos cumprimentarmos, as palavras de respeito e gratidão (com licença, por favor, muito obrigado etc.), são algumas das expressões rituais de sociabilização e convivência cidadã que mantemos diariamente com os nossos parentes, vizinhos, colegas de trabalho etc..

Antes de partidas de futebol, a formação de fila pelos jogadores de cada time e os árbitros (juiz e bandeirinhas) para canto do hino nacional, o cumprimento entre os atletas, são rituais, assim como também é ritual a troca de camisas e abraços entre os jogadores ao final da partida. E não apenas nas partidas de futebol, mas em todas as práticas desportivas também estão presentes os rituais.

Há também os chamados “rituais de passagem” festas de debutante, formaturas escolares, solenidades de casamento, de bodas de prata, de bodas de ouro, de bodas de diamante etc. momentos que marcam ritualisticamente a passagem de um estágio ou momento da vida para outro.

Além destes rituais profanos existem os rituais religiosos (crisma, batismo, casamento, missa de corpo presente, missa de sétimo dia, missa de ano de falecimento, etc.) através dos quais marcamos não apenas a fé que professamos, mas que nos identifica como membros de uma coletividade.

Portanto, não são apenas os índios que fazem rituais. Todos nós vivemos envoltos em diferentes formas de rituais.

O que acontece é que identificamos as práticas indígenas como rituais porque é sempre mais fácil perceber as expressões culturais de povos diferentes do nosso. A nossa cultura é tão intimamente vivida por cada um de nós que na maior parte das vezes nem sequer nos damos conta de nossas manifestações culturais. E isso acontece também com os índios, que certamente acharão que a vida do “homem branco” é cheia de rituais, ou, pegando a pergunta da Jacilene, que os “brancos” precisam de rituais para fazerem qualquer coisa.

Contudo, embora os índios não façam rituais para “qualquer coisa”, é inegável que a vida indígena é marcada por vários eventos ritualísticos, de diferentes ordens, sagrados e profanos. E isto se dá porque os povos indígenas preservam uma relação mística, espiritual e religiosa, tanto entre as pessoas que compõem as suas comunidades como entre os membros das comunidades e a natureza, que em muito os distingue das sociedades modernas, científicas e laicas, onde a espiritualidade está reduzida a espaços específicos e tempos determinados.

 “Ao finalizar essa nossa conversa virtual, quero dizer-lhes que foi um grande prazer responder as perguntas. As minhas respostas não têm a intenção de dizer o que é o índio e como é a vida de índio. Também não tenho a intenção de convencer ninguém de que a minha opinião é a verdade sobre o viver dos povos indígenas. O que espero é que esta nossa conversa desperte em vocês, em cada um de vocês e em todos, o interesse pelos povos e pelas culturas indígenas e o reconhecimento dos índios como pessoas iguais aos brancos e aos negros, e, principalmente, espero que esta nossa conversa contribua para despertar e aumentar o respeito ao direito que cada um de nós (e, portanto, também os índios) temos de continuar a ser o que somos sem precisar mudar os nossos modos de vida.

Por fim, lembrando novamente aquela música, tomara que não apenas o dia 19 de abril seja dia do índio, mas que todo dia volte a ser dia de índio, e dia de índio e não índio vivendo em convivência pacífica respeitosa”.


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